As
bases histórico-culturais do aproveitamento pedagógico
da criatividade na educação escolar
O papel da criatividade na formação escolar do educando
ganhou destaque com o processo de escolarização em massa
que caracterizou a democratização do ensino laico ao longo
do século XX. Uma possível explicação para
isso é que a criatividade teria ido ao encontro das exigências
impostas à instrução formal pela industrialização
da produção de bens e concorrência crescente entre
as empresas.
De acordo com esse ponto de vista, a economia internacional teria passado
a solicitar da escola a formação de pessoal minimamente
qualificado para ocupar os postos de trabalho disponíveis no
Mercado - que se caracterizava então pela modificação
constante das técnicas de produção e por uma “necessidade
permanente de invenções” (Ponce, 1995).
Essa demanda crescente de novas invenções teria trazido
ao terreno pedagógico, entre o final do século XIX e início
do século XX, a discussão da importância da criatividade
para o desenvolvimento tecnológico dos novos equipamentos necessários
à indústria e para o aperfeiçoamento do design
dos seus produtos.
Paralelamente a esses fatores de ordem econômica, as concepções
relativas à infância estavam sendo radicalmente modificadas
nesse período em função dos resultados obtidos
com a afirmação da Psicologia como ciência. Considerada
importante aspecto da inteligência humana - e via para potencializar
a capacidade de resolução de problemas - a criatividade
deveria então ser estimulada na educação escolar.
A atividade criadora ou criatividade foi conceituada por Vygotsky como
“toda realização humana criadora de algo novo, quer
se trate de reflexos de algum objeto do mundo exterior, quer de determinadas
construções do cérebro ou do sentimento, que vivem
e se manifestam apenas no próprio ser humano” (1982:7).
Segundo ele existem dois tipos básicos de impulsos na conduta
tipicamente humana: 1) o impulso reprodutor ou reprodutivo e 2) o impulso
criador ou combinador. O primeiro estreitamente vinculado à memória
e o segundo intimamente relacionado à imaginação.
Vygotsky esclarece que é exatamente a atividade criadora das
mulheres e dos homens que faz com que a espécie humana possa
projetar-se no futuro, transformando a realidade e modificando o presente.
Imaginação ou fantasia é como ele denomina esta
atividade do cérebro humano que se baseia na combinação.
Vygotsky explica que a Psicologia atribui a estas palavras um significado
diferente daquele que o senso comum costuma lhes emprestar. Geralmente,
imaginação e fantasia estão associadas ao irreal,
a tudo aquilo que não se ajusta à realidade e que carece
de qualquer valor prático. No entanto, para a Psicologia, a imaginação
– base de toda atividade criadora – se manifesta em todos
os aspectos da vida cultural, possibilitando a criação
artística, científica e técnica.
De acordo com Vygotsky, absolutamente tudo que nos rodeia e que foi
criado pela mão do ser humano, ou seja, todo o mundo da cultura,
ao contrário do mundo natural, todo ele é produto da imaginação
e da criação humana baseada na imaginação:
“Todos os objetos da vida diária, sem excluir os mais simples
e habituais, vem a ser algo assim como fantasia cristalizada”
(1982:10).
Mas a representação cotidiana e habitual da criatividade
não enquadra suficientemente o seu sentido científico,
conforme fora explicitado por Vygotsky. Quase sempre, a criatividade
é concebida como propriedade privada de uns poucos eleitos (gênios,
talentosos, artistas, inventores e cientistas).
“Existe criação não apenas onde têm
origem os acontecimentos históricos, mas também onde
o ser humano imagina, combina, modifica e cria algo novo, por insignificante
que esta novidade possa parecer se comparada com as realizações
dos grandes gênios. Se somarmos a isso a existência da
criação coletiva que reune todas essas pequenas descobertas
insignificantes em sí mesmas da criação individual,
compreenderemos quão grande é a parte de tudo o que
foi criado pelo gênero humano e que corresponde à criação
anônima coletiva de inventores desconhecidos.” (1982:
11)
Vygotsky
diz que, quando se compreende deste modo a criatividade, não
é difícil reconhecer a relevância do estímulo
à capacidade criadora infantil no âmbito da educação
escolar nem o seu papel e importância para o desenvolvimento cultural
da criança. Segundo ele os processos criadores infantis se refletem
sobretudo no faz-de-conta porque, nele, as crianças (re)elaboram
a experiência vivida em seu meio social, edificando novas realidades
de acordo com seus desejos, necessidades e motivações.
Vygotsky assinala que a faculdade de combinar o antigo com o novo é
que lança as bases da atividade criadora tipicamente humana.
E que isso (a noção de presente, passado e futuro) só
é possível a partir da aquisição de um novo
funcionamento psíquico ou “superior”, que não
é dado biologicamente mas aprendido ao longo da enculturação
do sujeito. As funções mentais de natureza histórico-cultural
ou “superiores” são portanto conseqüência
do uso da linguagem verbal, quer dizer, o aprendizado deste meio de
comunicação através de palavras engendra necessariamente
uma nova forma de funcionamento psíquico: o pensamento verbal.
Isso equivale afirmar que sem o pensamento verbal não pode haver
imaginação. É por isso que os animais não
possuem este intrigante fenômeno do comportamento tipicamente
humano. A imaginação é uma função
mental exclusiva de um tipo de funcionamento psíquico novo, cultural
ou “superior”.
Ele nos explica também que a imaginação ou fantasia
nutre-se de materiais tomados da experiência vivida pela pessoa.
A partir disso, Vygotsky postula a principal lei à qual se subordina
a função imaginativa: Quanto mais rica for a experiência
humana, tanto maior será o material colocado à disposição
da imaginação. Desta lei, portanto, extrai-se a importante
conclusão pedagógica de ampliar a experiência cultural
da criança, caso se pretenda fornecer-lhe uma base suficientemente
sólida para que ela venha a desenvolver amplamente sua capacidade
criadora.
Vygotsky ainda faz questão de explicar que a memória e
a fantasia ou imaginação são funções
psicológicas complexas e dialeticamente interrelacionadas: “A
fantasia não está contraposta à memória,
mas se apoia nela e dispõe de seus dados em novas e novas combinações”
(1982:18). Portanto, do mesmo modo que a imaginação apoia-se
na experiência, a experiência pode ser construída
exclusivamente a partir da mobilização do imaginário
do sujeito.
No sentido de entender melhor como se dá a vivência de
experiências a partir do imaginário ele chama nossa atenção
para o enlace emocional que caracteriza os vínculos entre imaginação
e realidade, referindo-se à sua lei da dupla expressão
ou da realidade dos sentimentos. Esta lei diz respeito à capacidade
de retroalimentação de um sentimento ou estado emocional
através da fantasia ou imaginação. Por exemplo:
se alguém me desperta grande desejo sexual, imaginar o corpo
deste alguém colado ao meu, acariciando-me, fará com que
eu me sinta excitado(a). Assim, Vygotsky nos revela a dimensão
afetiva de qualquer atividade criadora:
“Isto
significa que tudo o que edifica a fantasia influi reciprocamente
em nossos sentimentos, e ainda que essa construção
em si não concorde com a realidade, todos os sentimentos
que ela provoca são reais e efetivamente vividos pelo ser
humano que os experimenta” (1982:23)
Paralelamente
às tintas emocionais que entram na composição da
pintura do quadro da atividade criadora humana – que não
prescinde a mobilização do imaginário - Vygotsky
lembra-nos que determinados produtos da imaginação dos
seres humanos terminam por dar origem a algo completamente novo e não
necessariamente presente na experiência prévia das pessoas.
E mais: que esses artefatos de origem imaginária podem se converter
em objetos tão reais que passarão a influir concretamente
sobre outros objetos. É o caso, por exemplo, dos produtos da
criação artística.
A seguir, serão expostos os fundamentos psicológicos da
criação e apreciação destes artefatos estéticos
de acordo com as idéias de Vygotsky. Antes, porém, julgou-se
oportuno contextualizar historicamente o pensamento psicológico
vygotskiano e apresentar indícios do seu engajamento na vanguarda
artística da Russia pós-revolucionária.
Vygotsky
e o teatro de vanguarda russo-soviético
Lev Semenovich Vygotsky nasceu em Orsha (Bielo-Russia) aos 5 de novembro
de 1896 [3] e foi o segundo de oito filhos de um casal da comunidade
judaica de Gomel, cidade situada ao sudoeste de Moscou. Seu pai trabalhou
no Banco Unido de Gomel e chegou a chefiar uma seção do
Banco Comercial de Moscou após a revolução bolchevista.
Embora sua mãe fosse professora licenciada (BLANCK,1996:32) tanto
sua educação como a de seus irmãos foi confiada
a um tutor particular (VALSINER & VAN DER VEER,1996:17). Quando
adolescente seus interesses se concentraram na Literatura e nas Artes,
iniciando nesta época estudos sobre o Hamlet de Shakespeare -
que viria a ser o tema de seu trabalho de conclusão do curso
de Direito e Literatura na Universidade de Moscou. Em 1917, concluida
sua formação universitária em Moscou, retornou
à cidade de Gomel logo após a revolução
e passou a lecionar em escolas estaduais.
Ali, Vygotsky ocupou muitas posições de destaque na vida
cultural da cidade e chegou a coordenar um círculo de estudos
intitulado segundas feiras literárias no qual se discutia a produção
teatral de Shakespeare, Goethe, Tchekov, Maiakovski, Pushkin e de outros
dramaturgos. Guillermo Blanck, porfessor-pesquisador da Universidade
de Buenos Aires, ajuda a compreender melhor a produção
intelectual vigotskiana neste período ao esclarecer que:
"As
atividades de Vygotsky durante seus anos em Gomel eram parte de um
dos mais importantes movimentos intelectuais de nosso século.
(…) Os intelectuais inovadores não apenas se devotavam
pessoalmente a um trabalho criativo específico, mas participavam
do trabalho de instituições. Kandinsky, por exemplo,
era vice-presidente da Academia de Artes e Ciências de Moscou.
Malevich presidia a de Petrogrado, onde o arquiteto Tatlin, autor
do famoso monumento à Terceira Internacional, chefiava um Departamento.
Chagall era Ministro das Belas-Artes em Vitebsk. O versátil
Rodchenko organizava programas de educação artística.(...)
Meyerhold dirigia a seção teatral do Comissariado Popular
para a Educação e Stanislavsky presidia o Teatro Artístico
de Moscou. Gabo e seu irmão Pevsner representavam o grupo construtivista
e Maiakovski a Frente Esquerdista de Artes (Lef). Eisenstein, que
devido ao seu conhecimento de engenharia organizou a construção
de defesas durante a Guerra Civil, foi se tornar o professor dirigente
do Instituto Estatal de Cinematografia. O pedagogo Makarenko (1985)
fundou a Colônia Gorky para a reeducação de delinquentes
juvenis de rua (...) A escola formalista de Petrogrado estava revolucionando
a teoria literária com suas investigações. Bakhtin
e seu círculo, a partir de outro ponto de vista, estava produzindo
no mesmo campo de estudos. Lenin comandava o Estado e Lunacharsky
era o Ministro da Cultura e da Educação." (1996:35-36)
Em Gomel,
Vygotsky chefiou a Seção de Teatro do Departamento de
Educação Popular onde participou ativamente na seleção
do repertório, concepção de cenários, direção
de muitas encenações e foi o responsável pela coluna
de Teatro no jornal local Polesskaja Pravda. Segundo René Van
Der Veer e Jaan Valsiner (1996:23):"Ele nunca perdeu seu interesse
pelo Teatro, encontrava-se regularmente com cenógrafos e diretores
(como Eisenstein) e, perto do fim de sua vida, publicou um trabalho
sobre a psicologia do ator". [4] Victoriano Imbert, tradutor espanhol
de textos de Vygotsky, acredita que a interpretação vigotskiana
das Artes como forma de conhecimento, próximo ao científico,
teria se manifestado com particular nitidez nas idéias estéticas
de Berthold Brecht (em sua concepção de um Teatro Épico)
e de Eisenstein (na formulação do seu Cinema Dialético)(1972:71-72).
De fato, a concepção vigotskiana das Artes como sistemas
de representação semióticos as desincumbiam do
compromisso com a "imitação" ou "cópia
fotográfica" da realidade, instituindo-as como realidades
com "leis" próprias (1972:95).
O Teatro de vanguarda russo-soviético, contemporâneo das
idéias de Vygotsky, fundamentava-se numa estética didático-marxista,
fortemente informada pelos pressupostos da escola formalista e futurista.
V.V. Maiakóvski, poeta, dramaturgo e ator, um dos lideres da
renovação das Artes na Rússia pós-revolucionária,
fazia questão de esclarecer que todo o trabalho de pesquisa formal
na poesia, nas Artes Plásticas, no Teatro e no Cinema daquela
época não era "um fim em sí estético,
mas um laboratório para a melhor compreensão dos fatos
da atualidade." (Citado por Schnaiderman, 1984:222-238).
Os estudos e pesquisas cênicas que objetivavam a renovação
do teatro russo nas primeiras décadas do século XX buscavam
alternativas para os valores estéticos burgueses dominantes até
então nos palcos da Rússia. As mudanças pensadas
para a cena traduziam o anseio e a utopia da construção
de novas relações de trabalho, produção
e distibuição do poder na sociedade socialista soviética.
Do mesmo modo que a Psicologia, as Artes necessitavam adequar-se à
concepção materialista histórica da realidade e
do mundo. Um importante passo nesse sentido foi dado com os movimentos
formalista e futurista. Segundo Ripelino (1971:12) "após
a epopéia de Outubro, o futurismo foi favorecido pelo regime
e quase se lhe atribuiu uma tendência oficial".
Tanto o Formalismo como o Futurismo influenciaram as pesquisas cênicas
das mulheres e dos homens de teatro russos empenhados na descoberta
de novos caminhos para as encenações teatrais. A análise
crítica dos postulados estéticos do Formalismo feita por
Vygotsky [5] não o impediu que reconhecesse nesse movimento um
avanço em direção à concepção
marxista das Artes, especialmente através da formulação
do princípio de estranhamento (resgatado e desenvolvido posteriormente
por B. Brecht, na Alemanha dos anos 40, ao propor sua Poética
Épica da cena). Examinando-se relatos das pesquisas teatrais
e preocupações estéticas de V. E. Meyerhold, ator
e encenador russo contemporâneo de Vygotsky e Eisenstein, conclui-se
que o aprofundamento de seus estudos objetivava a operacionalização
cênica desse efeito de estranhamento, aliás, como o próprio
Meyerhold chegou a admitir:
"No
teatro da convenção o espectador não esquece
em nenhum momento que diante dele está um ator que representa,
e o ator não esquece que diante dele está a platéia;
sob seus pés, o palco e ao redor, a cenografia. É a
mesma coisa com um quadro: ao olhá-lo não se pode esquecer
por um segundo que se trata de tintas, tela, pincel (...)"
(Citado por Cavaliere,1996:107)
Desde os
primeiros experimentos com as convenções, máscaras
e personagens da commedia dell'arte, passando pela apropriação
da tradição popular grotesca do teatro de feira russo,
dos princípios técnicos da pantomima, do simbolismo cênico
até a formulação da biomecânica, o objetivo
estético de Meyerhold é a afirmação da teatralidade,
de um teatro de convenção e estilização,
do Teatro enquanto sistema de representação semiótico
(Cavaliere,1996:100).
A concepção do Teatro como sistema de representação
simbólico, quer dizer, como linguagem que possui regras próprias,
essencialmente convencional, é o ponto de partida para as críticas
de Vygotsky dirigidas ao Teatro Artístico de Moscou por ocasião
da encenação do Hamlet de Shakespeare, sob a supervisão
de Stanislavski. Esse mesmo entendimento do fenômeno teatral era
comungado por V. E. Meyerhold, que afirmava ser "através
da convenção que as estátuas de mármore
e de bronze não são pintadas. (...) Onde se encontra a
arte, encontra-se também a convenção" (Citado
por Cavaliere,1996:105).
A ênfase na teatralidade é um recurso anti-ilusionista
e deliberadamente contrário à perspectiva psicologizante
das encenações "naturalistas". A psicologia
marxista deveria entender os homens e as mulheres como seres nos quais,
sobre a base biológica, operam as injunções sócio-culturais,
historicamente determinadas. Assim sendo, era necessário a construção
de personagens que evidenciassem a dimensão simbólica,
cultural, de domínio e transformação da natureza
pela mão, ferramentas e instrumentos produzidos pelo ser humano.
O sistema biomecânico de preparação de atores formulado
por Meyerhold lograva introduzir, na formação do profissional
da cena, muito dos conhecimentos adquiridos com a doutrina dos reflexos
condicionados, defendida por Pavlov e Békhterev - que ambicionavam
explicar o mecanismo da origem e da produção das reações
adquiridas com base na cadeia reativa estímulo-resposta. O mecanismo
do reflexo condicionado e sua doutrina era visto na Russia pós-revolucionária
como o elo de ligação entre as leis biológicas
dos dispositivos hereditários estabelecidos por Darwin e as leis
sociológicas estabelecidas por Karl Marx, no entanto Vygotsky,
embora reconhecendo o valor da Reflexologia, [6] defendia a necessidade
de construção de uma perspectiva mais abrangente da Psicologia
- que reconhecesse a especificidade do funcionamento mental humano,
diferentemente do funcionamento mental animal.
Ele considerava que a Reatologia limitava o estudo do comportamento
a seu aspecto biológico, ignorando tanto a experiência
histórica e social (adquirida durante a evolução
filogenética humana) quanto a importância do papel fundamental
da psique e da consciência sobre as ações e reações
do ser humano. Sabe-se que Meyerhold, a partir dos anos vinte, deixa
de se valer unicamente dos recursos cênicos acrobático-biomecânicos,
embora continue a desenvolver pesquisas para a proposição
de um teatro não-ilusionista (Cavaliere,1996:100). O próprio
Meyerhold revelou sua preocupação em desenvolver uma linguagem
teatral assentada sobre os fundamentos materialistas históricos,
que enfatizasse a consciência do ator:
"A
arte deve se fundar sobre bases científicas e toda a criação
do artista deve ser consciente. A arte do ator é fundada sobre
a organização de seu material, isto é, o ator
deve saber utilizar corretamente os meios expressivos de seu corpo."
(Citado por Cavaliere, 1996:116)(Grifo meu)
Embora
não seja possível categoricamente afirmar que o pensamento
psicológico vigotskiano tivesse exercido uma influência
decisiva sobre a concepção cênica meyerholdiana,
há indícios de que Meyerhold tenha entrado em contato
com suas idéias - especialmente quando se considera a amizade
em comum de ambos com S. Eisenstein.
Segundo V.V. Davydov e V.P. Zinchenko, psicólogos russos:
"(...)
a idéia de base simbólica e de signo da consciência,
que Vygotsky desenvolveu, relacionava-se com a teoria e a prática
do simbolismo russo, cuja manifestação mais nítida
estava na poesia, no teatro e no cinema. O simbolismo, na arte, opõe-se
ao naturalismo, como fica claramente evidenciado nos trabalhos e na
poesia de V. Ivanov e A. Belyi; nos livros, peças e filmes
de V. Meierkhol'd e S. Eisenstein. Para Vygotsky, um extraordinário
conhecedor de arte, essa oposição assumia a forma de
um protesto científico contra o naturalismo na psicologia (...)
Vygotsky conhecia pessoalmente vários desses representantes
da ciência, da cultura e da arte mencionados anteriormente (alguns
eram seus amigos), e conheceu os outros através de suas publicações."
(1995:154)(Grifos meus)
De fato,
na Russia pós-revolucionária, os artistas e a intelectualidade
estavam empenhados em discutir as bases ideológicas e estéticas
sobre as quais deveriam se erigir as Ciências e as Artes da nova
sociedade socialista soviética. A questão da consciência
estava posta como eixo central do desenvolvimento total do ser humano
e as Artes, particularmente o Cinema e o Teatro (poderosos veículos
de comunicação não escrita para a maioria analfabeta
da Russia da época) deveriam constituir-se enquanto fórum
ou arena na qual seriam travadas batalhas de idéias, pensamentos
e concepções da organização sócio-política
e econômico-cultural do país. O teatro fundado dramática
e cênicamente pela vanguarda russo-soviética é veículo
de propaganda das novas relações de produção,
trabalho e poder estabelecidas com a organização social
e política derivada da revolução de 1917: é
um meio indispensável para a publicidade explícita dos
valores estéticos e dos pressupostos materialistas históricos,
marxistas, como afirmava Maiakóvski (Citado por Schnaiderman,
1971:127-133).
O Prof. Dr. Michael Cole, que foi orientado por A.R.Luria [7] em Moscou,
entre o final da década de sessenta e o início dos anos
setenta, e atualmente dirige o Laboratorio de Cognição
Humana Comparada [8] do Departamento de Comunicação da
Universidade da Califórnia de San Diego-UCSD, confirma os vínculos
de Vygotsky e de seus seus colaboradores com artistas da vanguarda russo-soviética
engajados na construção de uma nova estética para
as Artes:
"Ele
[Luria] e Vygotsky, por exemplo, encontravam-se regularmente com Sergei
Eisenstein, para discutir como as idéias abstratas que estavam
no coração do materialismo histórico poderiam
ser incorporadas em imagens visuais projetadas sobre uma tela de cinema.
Por acaso, Alexander Zaporozhets (colaborador do grupo de pesquisas
liderado por Vygotsky), que havia sido ator na Ucrânia antes
de ir a Moscou, e havia sido recomendado a Sergei Eisenstein, tornou-se
psicólogo. Ao final da década de 20 ele tinha o papel
de "olheiro" da psicologia no mundo do cinema, frequentando
as discussões de Eisenstein que ele então relatava a
Vygotsky e Luria. Eisenstein utilizou a ajuda de seus amigos psicólogos
não só para resolver o difícil problema da tradução
de conceitos verbais e visuais, mas também para resolver o
problema empírico da avaliação do sucesso. Com
sua ajuda, ele elaborou questionários que apresentava à
sua audiência, composta de trabalhadores, estudantes e camponeses,
para determinar se eles entendiam suas imagens como ele havia pretendido.
É uma medida da extensão de seus interesses que, para
Alexander Romanovich [Luria], a relação entre modos
de representação de idéias e modos de pensamento
não tenha sido menos importante no cinema que no laboratório."
(1992:211)(Grifo meu)
Os biógrafos
de L.S. Vygotsky consideram o período de Gomel como marco da
origem do seu pensamento psicológico. Muitos deles concordam
que o desejo de Vygotsky em aprofundar suas teorizações
sobre os procedimentos conscientes implicados na criação
e apreciação artísticas e a respeito da especificidade
psicológica da reação estética o conduziram
ao estudo exaustivo da psicologia geral:
"Ao
se mover da arte para a psicologia, Vygotsky pôde testar suas
construções teóricas derivadas de um domínio
complexo em um outro domínio. Seu trabalho com a arte capacitou-o
a tratar de problemas psicológicos complexos (...) de uma forma
muito mais rigorosa do que investigadores com formação
em psicologia propriamente dita, na sua época ou na nossa.
Foi um mérito - e não um demérito " (Valsiner
& Van Der Veer,1996:47)(Grifo meu)
Acima se
buscou demonstrar o interesse pelas Artes, particularmente pela estética
cênica, nas origens do pensamento psicológico de Lev Vygotsky
e, ao mesmo tempo, revelar indícios de sua amizade com membros
da vanguarda artística da Russia pós-revolucionária.
Adiante se fará uma exposição abreviada da teoria
da reação estética e do conceito de catarsis vygotskianos.
A psicologia das artes segundo Vygotsky
Para Vygotsky, o estudo dos fundamentos psicológicos das Artes
se encontrava vinculado aos pontos de vista adotados pelas teorias da
percepção, do sentimento e da imaginação-fantasia.
Ele estava convencido de que a abordagem psicológica à
criação artística só era possível
a partir do desenvolvimento de uma argumentação que estivesse
baseada num destes três aspectos da psicologia humana (percepção,
sentimento e imaginação) ou numa articulação
conjunta deles.
A premissa básica de sua abordagem psicológica às
Artes é a diferença entre a reação estética
e as reações comuns causadas, por exemplo, pelo paladar
ou olfato. Ele esclarece que embora a questão da percepção
seja um dos problemas fundamentais no estudo psicológico da criação
artística ela não se constituia no seu eixo central. O
epicentro das investigações deveria resultar do cruzamento
entre as problemáticas da sensibilidade e da imaginação.
Vygotsky advogava a necessidade de estudos e pesquisas para elucidarem
as questões relacionadas à emoção e à
fantasia - os campos mais problemáticos e desconhecidos da psicologia
da época. E ressaltou a dualidade consciência-inconsciência
que caracterizava a discussão da afetividade.
De acordo com a teoria da projeção sentimental não
é a obra de arte que desperta no público os sentimentos,
como as teclas do piano produzem o som. Ao contrário: o público
projeta nos objetos artísticos seus sentimentos. Para Vygotsky,
essa teoria, ainda que sofresse de muitos defeitos, representava um
avanço em relação à idéia de que
o objeto estético infundiria no público suas qualidades
emocionais. Esclarece assim que, do ponto de vista de uma psicologia
objetiva, a teoria da projeção sentimental representava
a reação, a resposta ao estímulo e se encontrava
mais próxima portanto das leis da Reflexologia.
Mas, de acordo com ele, essa "resposta" do público
à criação artística se baseava em mecanismos
complexos de percepção da totalidade dos produtos artísticos
e não poderia ser explicada apenas pelo esquema estímulo-resposta.
Vygotsky considerava que o principal defeito da teoria da projeção
sentimental era não enxergar a diferença entre a reação
estética e as outras reações biológicas
do organismo. Para responder a estas questões essenciais na abordagem
psicológica às Artes, nenhuma teoria da emoção
estava em condições de explicar a relação
interna que existe entre o sentimento e os objetos que se colocam diante
da percepção do sujeito porque, para obter-se uma explicação
satisfatória, seria necessário investigar melhor as relações
e inter-relações entre fantasia e sentimento uma vez que
"todas as nossas emoções possuem não apenas
uma expressão corporal, mas também uma expressão
anímica" (1998:263).
Ao levantar a questão da conexão entre emoção-sentimento
e fantasia-imaginação Vygotsky refere-se à lei
da dupla expressão emocional que demonstrava exemplarmente o
fato de toda emoção servir-se da imaginação
para projetar uma série de representações e imagens
fantásticas, que por sua vez evocavam uma segunda expressão
do sentimento. Tomando por base a dupla expressão emocional do
sentimento, através da imaginação, é que
passa a ser apresentada a sua lei da realidade dos sentimentos:
"Se
pela noite em casa confundo um paletó pendurado com um homem,
meu erro é evidente, já que minha vivência é
falsa e não corresponde a nenhum conteúdo real. Mas
o medo que experimento neste caso é verdadeiro. Deste modo,
todas nossas vivencias fantásticas e irreais se desenvolvem
sobre uma base emocional completamente real. Por conseguinte, o
sentimento e a fantasia não são dois processos isolados
um do outro, mas de fato representam o mesmo processo, e temos direito
de considerar a fantasia como a expressão central da reação
emocional." (1998:264)(Grifo meu)
A lei da
realidade dos sentimentos (que pode ter sido influenciada pelo conceito
de "Fé Cênica" [9] desenvolvido por Stanislavski
no âmbito do seu sistema de interpretação teatral)
fundia sentimento e fantasia e auxiliava no entendimento da "enigmática
diferença" entre o sentimento artístico e o sentimento
habitual. Vygotsky observou que no faz-de-conta e também nos
processos de representação dramática de natureza
estética (no Teatro) ocorria uma contenção da reação
emocional porque "a criança que brinca de luta detem o movimento
da mão disposta a acertar o golpe em seu companheiro de brincadeira"
(1998:265). Ele esclarece que tanto o sentimento esteticamente determinado
como o sentimento habitual, embora fossem formas de sentir muito semelhantes,
originavam-se de processos psicológicos distintos. O sentimento
artisticamente determinado se constituia e se mantinha através
da imaginação, que o reforçava, e isso fazia com
que a expressão dos sentimentos e emoções suscitados
pelo brinquedo infantil, pelo Teatro ou por qualquer criação
artística fossem de alguma maneira contidos e "controlados"
e ao mesmo tempo possuissem grande intensidade. Para ele, as emoções
sucitadas pelas artes eram emoções “inteligentes”
– possuiam uma dimensão anímica.
Vygotsky demonstra que na reação estética se configura
uma contradição original que era expressa exemplarmente
pelo Paradoxo do Comediante de Diderot, segundo o qual o ator chora
com lágrimas de verdade mas suas lágrimas brotam de seu
cérebro. A especificidade da reação estética
é caracterizada portanto destacando-se nela a retenção
e o controle das manifestações exteriores da emoção.
Essa contradição afetiva acarretava em seu entendimento
o fato de que sentimentos opostos uns aos outros terminassem por provocar
um “curto circuito” que os aniquilava. Esse era o efeito
que caracterizava a especificidade da reação estética:
a catarsis.
Esclarecendo que não pretende com a palavra catarsis se reportar
ao conceito de Aristótelis ou elucidar o significado que o pensador
grego lhe pretendia atribuir em sua Poética, Vygotsky denomina
catarsis a reação estética propriamente dita:
"(...)
nenhum outro termo dos empregados até agora em psicologia expressa
de forma tão completa e clara o fato, fundamental para a reação
estética, de que os afetos dolorosos e desagradáveis
se vejam submetidos a certa descarga, a seu aniquilamento, a sua transformação
em sentimentos opostos, e de que a reação estética
como tal se reduza de fato à catarsis , ou seja, a uma completa
transmutação de sentimentos." (1998:270)(Grifo
meu)
Ele explica
que a base da catarsis reside no caráter contraditório
implicito à estrutura das criações artísticas,
ou seja, na oposição entre material e forma. Sua teoria
da reação estética estabelece que os sentimentos
evocados a partir da criação artística são
retroalimentados pela fantasia-imaginação e se encontram
conscientemente organizados nos objetos artísticos para a obtenção
da catarsis (reação estética). Com isso, Vygotsky
enfatiza a importância da abordagem psicológica às
Artes na elucidação do sistema geral da conduta humana
e chama atenção para a especificidade das reações
estéticas.
A criação artística na educação escolar
Acredita-se ter apresentado até aqui, de maneira sucinta, alguns
dos principais aspectos do pensamento vygotskiano a respeito da atividade
criadora humana. Para finalizar é necessário esplicitar
que, para ele, a criatividade [10] é uma função
psicológica comum a todos, independente de talento ou da maturação
precoce de uma determinada capacidade mental especial:
“Se
consideramos que a criação consiste, em seu verdadeiro
sentido psicológico, em fazer algo novo, é fácil
chegar à conclusão de que todos podemos criar em maior
ou menor grau e que a criação é acompanhante
normal e permanente do desenvolvimento infantil.” (1982:46)
Vygotsky
defendeu possibilitar à criança em idade escolar oportunidade
para o exercício pleno da criação artística.
As suas indicações para a organização de
intervenções pedagógicas que têm como objetivo
promoverem o exercício da atividade criadora de natureza estética
na educação escolar, sinalizam claramente a espontaneidade
da expressão infantil, [11] como é possível comprovar
na transcrição abaixo:
“O
teatro das crianças, quando pretende reproduzir diretamente
as formas do teatro adulto, constitui uma ocupação pouco
recomendável para crianças. Começar com um texto
literário, memorizar palavras estranhas como fazem os atores
profissionais, palavras que nem sempre correspondem à compreensão
e aos sentimentos das crianças, interrompe a criação
infantil e converte as crianças em repetidores de frases de
outros obrigados pelo roteiro. Por isso se aproximam mais da compreensão
infantil as obras compostas pelas próprias crianças
ou improvisadas por elas no curso de sua criação.(...)
Estas obras resultam sem dúvida mais imperfeitas e menos literárias
que as preparadas e escritas por autores adultos, mas possuem a enorme
vantagem de terem sido criadas pelas próprias crianças.
Não se deve esquecer que a lei básica da criação
artística infantil consiste em que seu valor não reside
no resultado, no produto da criação, mas no processo
de criação em si.” (1982:87-88)(Grifos meus)
Algumas
consequências da atividade ludodramática de natureza estética
para o desenvolvimento cultural da criança em idade escolar foram
inclusive destacadas por Vygotsky. Entre elas: 1) Incremento das intenções
voluntárias; 2) Formação e distinção
dos planos da realidade e da fantasia; 3) Fortalecimento das noções
de lazer e trabalho; 4) Internalização de papéis
sociais e 5) Exercício da representação simbólica
de segunda ordem - que facilita a compreensão da escrita como
processo de representação semiótico. Para ele,
o jogo dramático infantil constitui importante área potencial
de desenvolvimento da criança.
É preciso dizer ainda que a ênfase conferida por Vygotsky
à espontaneidade das ações ludodramáticas
de natureza estética na infância, não significa
abandonar a criança a si mesma, aos seus impulsos internos e
gostos pessoais porque “do mesmo modo como ajudamos as crianças
a organizar seus jogos, selecionamos e dirigimos suas diversões,
também podemos estimular e conduzir suas realizações
artísticas” (1982:79-80). Para Vygotsky, o melhor dos estímulos
à criação artística infantil consiste em
organizar deliberadamente a vida e o ambiente educativo da criança
de tal modo a gerar a necessidade e a possibilidade para expressão
de sua criatividade.
O planejamento e organização de ambientes pedagógicos
favoráveis à expressão da atividade artístico-criadora
infantil não implica necessariamente frear a expressão
espontânea da criança já que “a completa liberdade
à criatividade da criança, a renúncia de todos
os esforços para colocá-la a par com a consciência
adulta, o reconhecimento de sua originalidade e de seus aspectos diferenciadores,
constitui um prerrequisito fundamental da psicologia” além
disso “qualquer esforço no sentido de retocar ou corrigir
o desenho da criança representa apenas uma grosseira intromissão
na ordem psicológica da sua vivência e aventura, constituindo-se
um impedimento à sua experiência” (1997: 257).
Vygotsky explica que a criança escreve poesia e desenha figuras
não exatamente porque um futuro poeta ou futuro artista plástico
está lutando para desabrochar nela, mas porque estes atos de
criação estética são, naquele momento, necessários
para ela e porque existem potencialidades criativas que dizem respeito
a todos e a cada um de nós.
Ainda segundo ele, o sentido e a importância de se promover a
criação artística na infância reside no fato
dela auxiliar a criança na superação da estreita
e difícil passagem ao amplo funcionamento de sua imaginação
- que irá conferir à sua fantasia uma nova direção
ao longo do seu subseqüente desenvolvimento. Também porque
ela aprofunda e ao mesmo tempo flexibiliza sua vida afetiva, despertando-lhe
o interesse para o engajamento em atividade socialmente relevante. Além
disso, a criatividade estética permite à criança
exercitar seus desejos e formar hábitos, dominar o funcionamento
da representação simbólica na linguagem, formular
e transmitir suas idéias, auxiliando-a no desenvolvimento da
modalidade categorial de pensamento.
Para Vygotsky a familiaridade da criança com os sistemas convencionais
de representação de cada uma das Artes deveria ser parte
indispensável da educação escolar pública:
“O sentimento estético tem, que se tornar um assunto da
educação como são todos os outros assuntos, e receber
atenção especial” (1997: 259).
Diante da concepção vygotskiana da criatividade exposta
até aqui parece ficar muito evidente a função e
importância conferida às Artes na formação
cultural do educando pelo eminente psicólogo russo-soviético.
O ensino de Arte (das Artes) defendido por ele, ao mesmo tempo em que
pressupõe a ampla criação espontânea do aluno
nas diversas linguagens artísticas, requer do professor uma intervenção
pedagógica muito precisa, no sentido de promover modalidade de
funcionamento e atividade mental superiores na perspectiva do desenvolvimento
cultural por parte do estudante.
Conclui-se portanto que, para Vygotsky, exercer a criatividade, a criação
e a apreciação artísticas pressupõe um comportamento
tipicamente humano que auxilia no entendimento da condição
sócio-cultural, historicamente determinada (em processo permanente
de construção) que nos caracteriza a todos e a cada um
de nós - seres de natureza cultural, criadora, transformadora,
simbólica.
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